TALENTO TAE: ENTREVISTA COM LARA CARVALHO 

 Vou Dançar até Você, da cineasta, atriz e Técnica Administrativa em Educação na Faculdade de Educação Física e Dança da Universidade Federal de Goiás, Lara Carvalho, estreia em Coimbra, Portugal

Por ocasião do lançamento do primeiro documentário de Lara Carvalho no Festival Internacional de Documentários de Coimbra (Portugal), o Sint-IFESGO realizou uma entrevista com a cineasta, atriz e TAE da UFG sobre sua trajetória como artista e servidora pública. Mais um Talento TAE que orgulha a categoria e toda a sociedade goiana por seu trabalho e por seu destaque no universo das artes.

 

Leia a entrevista completa abaixo:

Gostaríamos de conhecer um pouco da sua trajetória enquanto servidora e enquanto artista. Como se deu essa sua caminhada enquanto TAE e enquanto documentarista?

Eu ingressei na UFG como servidora em 2016 e fui lotada na Faculdade de Educação Física e Dança, acredito que estar em contato com um curso da área de Artes contribuiu bastante para o meu interesse e desenvolvimento como artista.

Antes disso, eu trabalhava com comunicação, publicidade e marketing e apesar de ser uma área criativa, eu não tinha me arriscado a produzir ou investir de fato em uma carreira artística.

Em 2019 eu me matriculei em um curso de extensão em Dança Contemporânea aqui na faculdade e, no ano seguinte, comecei a estudar cinema documentário de forma online em uma escola de São Paulo. Durante esse curso realizei meu primeiro curta documental de forma improvisada, gravado com celular, mas que circulou em festivais regionais e em mostras universitárias.

A partir desse momento, decidi que seguiria criando obras autorais. Além disso, fiz mais uma dezena de cursos livres, em universidades, festivais, produtoras culturais e também me formei como atriz pela Escola do Futuro em Artes Basileu França.

Por fim, me dediquei ao projeto que considero meu primeiro filme, Vou Dançar Até Você, realizado com o apoio de uma equipe profissional e viabilizado por financiamento público por meio da Lei Paulo Gustavo.

 

O título do seu filme é Vou Dançar Até Você, um título poético e sugestivo. Remete a afeto, à aproximação. Vendo o teaser, notamos que ele aborda também memória, ausência… O que o motivou? O que você quis explorar neste trabalho?

O título Vou Dançar Até Você nasce justamente desse impulso de aproximação que você menciona. Para mim, ele carrega a ideia de um movimento contínuo em direção a alguém que já não está fisicamente presente, mas que permanece de outras formas. A dança aparece como esse gesto simbólico de atravessar o tempo, a ausência e a memória.

O filme foi motivado por um desejo muito íntimo de revisitar a presença da minha mãe após a morte dela. Então eu reúno minha irmã e minhas sobrinhas na casa em que moramos boa parte da vida, em Inhumas, no interior de Goiás, e crio um espaço onde essa ausência começa a se revelar de maneira sutil, nos traços físicos que se repetem, nos objetos que guardam histórias, nos ambientes que ainda parecem habitados por ela.

O que me interessava explorar era justamente essa dualidade entre ausência e permanência. Como alguém continua existindo em nós, mesmo depois de partir? Como a memória vai se transformando e, ao mesmo tempo, resistindo ao esquecimento? O filme se constrói como um ensaio, observando como essas lembranças se diluem ao longo das gerações, mas também insistem em permanecer nos gestos, nos corpos e nas relações.

Por isso, optei por uma linguagem mais poética e sensorial, em que a narrativa não depende apenas da palavra, mas também da imagem, do ritmo, da repetição, dos silêncios. A forma do filme acompanha a própria natureza da memória: fragmentada, delicada, feita de pequenos vestígios.

Embora parta de uma experiência muito pessoal, acredito que o filme toca algo universal, essa tentativa de continuar “dançando” em direção a quem amamos, mesmo quando essa pessoa já não está mais aqui. É um filme sobre luto, mas também sobre afeto, herança e a permanência das relações para além da presença física.

 

Você poderia nos descrever uma cena que sintetize o filme?

Bom, a cena final me toca de maneira especial porque, de certa forma, ela condensa o espírito do filme. Nela, minha família realiza um pequeno ritual de despedida e homenagem à minha mãe, mas que, para mim, se amplia como um gesto dedicado a tantas outras mães e avós.

Subimos juntas um morro carregando um estandarte bordado com a imagem dela e da palavra “mãe”. Esse movimento de subida tem um sentido muito simbólico: é uma travessia, quase um rito de passagem. Carregar esse estandarte é como tornar visível aquilo que continua sendo levado dentro de nós, a memória, o afeto, a herança.

Ao mesmo tempo, essa caminhada não é só sobre luto, mas sobre continuidade. É como se, ao subir, estivéssemos também reafirmando que ela segue conosco. A imagem da família subindo esse morro carrega a deia de esforço coletivo, de vínculo, de algo que se sustenta em conjunto.

Gosto de pensar que essa cena transforma a ausência em presença compartilhada. E que esse estandarte, mais do que representar minha mãe, passa a simbolizar todas essas presenças que permanecem, mesmo quando já não estão. Como se, ao final, seguíssemos todas, juntas, em direção a elas.

 

Seu filme estreou no Festival Doc Coimbra. Como foi a recepção do público a sua obra e o ambiente do festival como um todo?

O Doc Coimbra foi um festival muito especial, pois tem uma programação extensa e de muita qualidade. Além disso, eu assisti a mais de 30 filmes, todos muito interessantes e vindos de diversas partes do mundo, com forte relevância social, que tratavam de conflitos mundiais, imigração, processos colonizadores e identidades.

Ao mesmo tempo, senti que meu trabalho foi muito bem acolhido. Meu filme foi exibido na sessão de curtas lusófonos, junto com outros quatro filmes que também abordavam família e memória. Ao final da sessão, tivemos um breve debate com representantes dos filmes e, em seguida, algumas pessoas me procuraram para relatar que se emocionaram, que lembraram de algum parente que já se foi. Esses depoimentos me comovem e me fazem ficar em paz com o trabalho. Meu desejo sempre foi tocar as pessoas.

Na ocasião, também aproveitei para ter momentos de troca com outras mulheres realizadoras de diferentes países, e que pretendo manter contato, para quem sabe, desenvolver colaborações futuras.

 

Quais foram os desafios enquanto servidora para conseguir realizar uma obra?

Não foi um processo simples, porque realizar um filme exige tempo, pesquisa, organização e muitas articulações. Conciliar isso com as demandas do trabalho como servidora foi um dos principais desafios. Eu só consegui avançar de forma mais consistente porque, naquele período, tirei uma licença capacitação de dois meses, o que me permitiu uma dedicação mais integral ao projeto.

Essa experiência evidencia como ainda há pouco espaço institucional para a produção artística de servidores. Acredito que seria muito importante que a universidade desenvolvesse formas de apoio a esse tipo de trabalho, não apenas como incentivo individual, mas também porque essas produções ampliam o alcance da universidade na sociedade e fortalecem sua dimensão cultural.

 

Qual conselho você daria para os TAEs que queiram produzir um filme ou qualquer outra linguagem na arte ou na cultura de forma geral?

Meu conselho é: estudem e busquem formação, seja em espaços formais ou não formais. Hoje existem muitas oportunidades, inclusive gratuitas, em festivais de cinema, por exemplo, além de oficinas oferecidas como contrapartida de projetos, cursos de extensão e outras iniciativas. É fundamental estar em contato com os fazedores de cultura da sua cidade e do seu estado, articulando com coletivos, grupos de estudo e eventos de mercado, porque essas redes fazem muita diferença no percurso.

Por outro lado, é importante ter consciência de que não é fácil conseguir financiamento para produzir. Um dos caminhos são as leis de incentivo, então vale ficar atento aos editais divulgados pelas Secretarias de Cultura, tanto em nível municipal e estadual quanto nacional. Outra possibilidade é buscar parcerias com produtoras, mas, para isso, é essencial ter um projeto bem estruturado e consistente, que consiga comunicar com clareza sua proposta.

 

Quais os próximos passos na divulgação do seu filme e na produção de novos projetos?

Finalmente vamos fechar com uma distribuidora para que o filme alcance um público mais amplo, já que, quando esse trabalho é feito de forma independente, é muito difícil conseguir grande circulação. Estou muito ansiosa por uma boa estreia nacional, especialmente para que minha família possa assistir ao filme no cinema em sua versão final, já que ainda não o viram.

Também está em fase de finalização a videodança que produzi, chamada Uma Marca no Ar, com direção coreográfica de Ingrid Costa. É uma proposta de elaboração do luto por meio da dança e do movimento, com previsão de lançamento para 2027.

Atualmente, também me dedico à escrita do roteiro de um longa-metragem chamado Estou falando como uma filha ou ainda soltaremos foguetes, que dá continuidade à pesquisa iniciada em Vou Dançar Até Você. O projeto investiga memórias sobre as mulheres da minha família, abordando temas como gênero, saúde mental, maternidade, violência e autonomia feminina.

 

Quais as suas redes sociais para que o público possa acompanhar seu trabalho?

Meu instagram é @lara.ccarvalho e o do filme é @voudancaratevoce.doc

FIM

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Se você conhece algum Talento TAE, como a Lara, que se destaca em alguma área do conhecimento, da cultura, do esporte e da vida pública em geral, ajude-nos a divulgar indicando seu nome e sua atuação ao sindicato para que possamos fortalecer o reconhecimento das habilidades dos colegas TAE. 

A diversidade e o empenho da categoria em se expressar pelos mais diferentes meios é um exemplo de criatividade, dedicação e talento que os TAEs demonstram com competência e por isso precisam ser cada vez mais reconhecidos.

Conheça um pouco mais da trajetória de Lara Carvalho e veja um trecho do filme abaixo:

 

Sint-IFESGO: Experiência Que Avança, Renovação que Transforma!

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